Há uma tendência de associar a felicidade à posse de objetos materiais, ou até mesmo a pessoas. Certamente você já ouviu a frase “fulano me faz feliz”, ou então, “eu sempre quis ter isso”. É verdade que objetos materiais são importantes para nós assim como a convivência e o relacionamento com pessoas, sem as quais não faria sentido viver. Porém, mesmo tendo tudo isso, é difícil ficarmos em um estado isento de inquietações, a não ser por poucos minutos, ou segundos.
Uma perspectiva diferente de pensar é que a felicidade está ligada a um sentimento ou convicção interna de que o bem-estar supera o sofrimento. Ou seja, que existe algo dentro de nós que molda nossa maneira de ser e de nos relacionarmos com o mundo e com os outros, nos proporcionando um conforto razoável. Essa visão, em particular, não tem a ver com a exterioridade das coisas em si, como a busca material, mas com a forma que reagimos com a realidade que a vida nos apresenta.
Todavia, é preciso ter o cuidado de não cair em uma idealização da felicidade. Quer dizer, nem só de pão vivemos, mas sem pão não sobrevivemos. Por isso, fica a ressalva de que sem suprir as necessidades básicas da existência, não há vida que possa se dedicar as questões do nível da felicidade.
Dito isso, podemos pensar sobre algo que diz respeito ao nosso momento atual. Talvez você caro leitor, leitora ou leitore, já tenha se deparado com uma situação em que respondia uma mensagem no whatsapp enquanto caminhava pela rua. Ou então, deslizava o dedo sobre a tela do celular em uma mão, enquanto segurava o garfo com a outra para comer, por exemplo. São cenas comuns do nosso dia a dia, mas o que isso tem a ver com felicidade?
Bom, aqui parto de um ponto o qual muitos filósofos já pensaram, o de que a felicidade é um sentimento simples. Apesar disso, não parece tão simples assim ficarmos felizes. Se pararmos por um momento para observar, estamos constantemente pressionados por milhões de estímulos que “gritam” pela nossa atenção. Não é fácil dar a devida atenção para a vida quando o cotidiano frenético derruba um caminhão de estímulos sobre a nossa cabeça, sem que sequer saibamos o que fazer com eles a não ser ficar indo de um vídeo a outro, ininterruptamente, até perdermos a noção do tempo que passamos nesse movimento.
Não há como ter uma experiência de sentir o mundo, as sensações que ele nos oferece e que nos permitem conhecê-lo um pouco mais para além do óbvio, sem ter atenção. Não conseguimos atingir a profundidade do simples ato de observar os raios de sol sobre as folhas de uma árvore, como faz o senhor Hirayama, no filme Dias Perfeitos.
Talvez seja a isso que Contardo Calligaris se referia quando disse que preferia ter uma vida interessante a ser feliz. Para Contardo, a felicidade não é necessariamente um estado constante de contentamento, mas sim a busca por uma vida interessante, significativa e autêntica, que envolve o enfrentamento de desafios e a construção de relações significativas consigo mesmo e com o mundo ao redor. Ele destaca a importância de uma vida plena e enriquecedora, mesmo que esta não seja isenta de dificuldades e contratempos.
Como Jorge Forbes comentou certa vez, “a felicidade se dá no acaso, no encontro, na surpresa, daí dizer que ela foge à consciência, que ela é uma magia.” Esse encontro pode ser condigo mesmo, com o mundo, com o outro. Por mais que nosso contentamento não seja eterno, haverá dias em que a felicidade nos aparecerá como a quem observa o sol sobre as folhas de uma árvore, e em outros, como alguém que observa as gotas de água escorrendo sobre o vidro da janela em um dia chuvoso.
Forbes, Jorge. “Felicidade não é bem que se mereça“. Disponível em: https://jorgeforbes.com.br/felicidade-nao-e-bem-que-se-mereca-versao-completa/. Acesso em: [30/04/2024].
Calligaris, Contardo. O sentido da vida. São Paulo: Paidós, 2023.